Thursday, February 17, 2005

Coincidência no samba, Rio

Moça antenada que é, Luciana Brum decidiu, há alguns anos, comemorar o aniversário no Carioca da Gema, na Lapa. Eu e Cláudia Lamego fomos as primeiras a chegar e seguramos uma mesa. O resto do pessoal do trabalho foi chegando aos poucos. Assim que sentamos, Cláudia fez uma cara estranha e perguntou: "você viu o Monarco na porta ou fui só eu?" Era o próprio, sentado do lado do porteiro, num banquinho, olhando o movimento que mal tinha começado. Estava tão quieto que quase passou desapercebido. Mas ninguém falou para dar sopa. Logo, ele estava com Lamego, eu e uma roda de cinco ou seis pessoas que, à vista de uma situação daquelas, nem entravam no salão. Baluarte da Portela, Monarco, dono de uma voz e de uma simpatia únicas falou bem de muita gente, desancou outros tantos. Só que, duas horas depois, o show dele começou. Despediu-se da gente e subiu no palco, com a casa já cheia. Lá pelas tantas, entra Luciana Brum, atrasada, Carioca da Gema adentro. Cláudia chega, então, perto do palco e anuncia o aniversário da amiga. Monarco, num arroubo durante o show que teve participação-relâmpago de Zeca Pagodinho, não se conteve:

-- Parabéns para a Luciana, que ela é amiga das meninas!!!!

Moça do samba que é, Cláudia Lamego reclamava, meses depois, que namorava um sujeito que não tinha nada a ver com ela. Era um dos últimos dias que me restavam antes das férias, acho que de 2003. Já eram umas seis da tarde, senão mais. "Ah, ele não gosta de samba. Queria tanto ir mais vezes no Carioca da Gema, Bip-Bip mas nunca dá". Nesse exato instante, chegou às mãos de Tatiana Clébicar um CD de divulgação do espetáculo "O samba é minha nobreza". Praticamente, só estávamos nós no trabalho. Pedi licença, abri o encarte e apontei para uma foto de Pedro Paulo Malta, amigo de longa data que trabalhava com Esportes e fazia parte do elenco. Sem dúvida, a figura mais ligada ao samba que eu conhecia."Ah, ele é muito bochechudo", reclamou Cláudia, em seu inesquecível comentário. Dias depois, saí de férias, viajei para longe, descansei, esqueci do trabalho. Quando estava para voltar, sonhei com o Pedro. Ele tinha lido um diário meu -- que não existe -- e havia deixado o dele sobre a minha mala de viagem com um bilhete: "agora que sei da sua vida, saiba da minha". Mandei um e-mail contando a história e perguntando como estavam as coisas. "Está tudo ótimo. Inclusive, conheci uma amiga sua, a Cláudia Lamego. Tão linda, inteligente, culta". Estranhei muito. Como isso teria acontecido? Quem haveria apresentado os dois? "A Pâmela, que te conhece". Pâmela? Depois, de fato, a conheci. De volta ao Rio, liguei para o celular da Cláudia, que me atendeu com um grito.

Cláudia fora ao Bip-Bip, a segunda casa de Pedro, sem óculos. Dançou, dançou, dançou o suficiente para ele, que estava lá, notar sua presença. Ela, míope, não o viu. Na semana seguinte, ela foi ao Centro Cultural Carioca, outro reduto do samba. De óculos. Pedro se apresentou na fila do caixa. Os dois ainda se encontraram mais uma vez, no Bip-Bip, em Copacabana, desta vez com direito a beijo. Foi exatamente neste dia que eu mandei a mensagem. Dizem as fontes, ainda está guardada. Namoram até hoje. Conversando com Monarco esses dias, por motivo de trabalho, perguntei se ele lembrava da Cláudia no Carioca da Gema. "Claro! E ela virou namorada do Pedro Paulo. E que casal lindo fazem, não? Desse casamento, faço questão de ser padrinho".

Monday, February 14, 2005

Concidência em Barajas, Madri

Por ter família longe e pai que viajava muito, cedo me tornei uma rata de aeroporto. Fiz a primeira de muitas viagens para Florianópolis com dois meses, convivi com cinco idas ao Japão por ano. Ainda criança, fui acostumada a fazer check-in e encontrar o portão de embarque no painel, reconfirmar vôo, pesar bagagem e calcular fusos horários mundo afora e também a saber qual era a cota de dólares do Duty Free, sem falar em conhecer prefixos dos aeroportos que vinham na etiqueta da mala. Por isso, quando ganhei uma viagem de 15 anos para Bariloche e Buenos Aires, na Argentina, nada disso foi novidade. A neve, sim. Fui numa excursão e dividi o quarto com duas outras garotas, Daniella Della Valle e Érika Rosa que hoje, lamento, não sei por onde andam. Elas eram primas. Érika, em particular, era filha de um apresentador da Rede Manchete, o Ronaldo Rosas. Imediatamente, nós três nos entendemos muito bem e o passeio foi ótimo. Ainda lembro que tínhamos que avisar a Daniella quando chamavam o nome dela, que no sotaque portenho, soava Danieja Deja Vaje. Mas, de volta ao Rio, não nos falamos mais, sabe-se lá por que.

Felizmente, havia recursos e era a idade de conhecer o mundo. Talvez eu fosse mesmo uma adolescente rebelde que tinha que gastar energia. Pouco mais de seis meses depois, estava eu, não mais com parcos 15 mas com incríveis 16 anos, esparramada entre 4h e 5h nas poltronas de uma das salas de espera do aeroporto de Barajas, em Madri. Aguardava uma conexão da Iberia para Londres. Havia uma equipe da agência de viagens ajudando a garotada, que depois se espalharia pela Inglaterra. Ainda pegaria um ônibus para a cidade de Bournemouth, onde passaria os dois meses seguintes estudando inglês. O incrível foi que, na volta, o pessoal da agência tomou sumiço. Morrendo de sono e frio, me embrulhei no sobretudo bege do meu pai. Meia hora depois, se tanto, começo a escutar duas vozes se perguntando algo que soava como "é a Flávia ou não é?". Achei que estava com muito sono. Uma das meninas se aproximou de mim. Não lembro se era a Érika ou a Daniella. As duas tinham embarcado no mesmo vôo que eu do Rio e esperavam pela mesma conexão. "Mas o que vocês vão fazer na Inglaterra?" "Estudar em Hastings", repondeu uma delas. "Qual o número do seu assento?" Peguei o canhoto e descobri que era 9A. E que os delas eram 9B e 9C.